Matthew Murphy, o génio que lidera os Wombats, tem um projecto a solo: Love Frame Tragedy. O rapaz não sabe fazer nada que não seja brilhante e épico e bombástico e poético e elevatório pelo que o primeiro álbum desta aventura, ‘Wever I Go, I Want to Leave’, lançado em 2020, é uma verdadeira preciosidade.
Gravado entre Sydney, Londres e a cidade onde o músico e compositor britânico, natural de Liverpool, prefere viver – Los Angeles – o disco conta com as colaborações de Dan Smith, dos Bastille, de Mark Stoermer, dos The Killers e de Holly Isabella Rankin (mais conhecida por Jack River).
O projecto Love Fame Tragedy é um magnífico escape, espécie de bode expiatório e sofá supersónico de psicanalista, através do qual o autor confessa as suas ansiedades e faz a inquirição das suas angústias e assim, ‘Wever I Go, I Want to Leave’ é um confessionário de 17 pistas de hedonismo, fragilidade, ansiedade e paixão, para falar apenas de algumas das feridas que são escarafunchadas. E a obra ao branco abre logo com um manifesto de intenções que impressiona pela determinação rítmica e poder melódico.
‘Wever I Go, I Want to Leave’ é Murphy ele mesmo, de viva voz, sem desvios nem distrações, com o coração na garganta e a criatividade lírica suspensa no fino arame onde enfrenta os seus próprios demónios e lida com o passar dos anos.
É por isso que somos confrontados constantemente como poesia pop como deve ser: alheia a convenções e despida de pudores. A capacidade para construir refrões amigos do ouvido a partir de versos que aparentemente não nasceram para ser cantados é uma das imagens de marca da fabulosa e criativa pena de Matthew Murphy. Eis um exemplo óbvio, numa malha daquelas que não saem facilmente do loop que os neurónios criam quando apanham uns acordes bem sucedidos.
No confessionário que Matthew Murphy construiu neste seu trabalho ímpar, ficamos por exemplo a saber que o britânico não quer ser assassinado. O homem acha, e tem boas razões para isso, que ainda tem muitas canções para deitar cá para fora. Mesmo quando duram só um minuto e meio, valem a pena. Por isso, o Contra apela à rapariga que está com ganas de matar o Murphy que pare para pensar na quantidade de boa música que vai ficar a perder, que todos nós vamos ficar a perder, se der livre curso à sua fatal volição.
A rapariga que queria assassinar o Matthew Murphy é, além disso, uma grandessíssima desmancha prazeres. O Matthew tem que se apaixonar rapidamente por uma musa mais fixe. Ou não. Porque com esta musa, pelo menos no que respeita às melodias, a coisa não está a correr nada mal. Ficamos por isso algo confusos sobre a vida romântica do rapaz. Que é como todos devemos estar sobre a intimidade dos outros. Bestial:
Ainda por cima, parece que Matthew Murphy vive numa ilha rodeada de tubarões por todos os lados (excelente definição de Los Angeles, por acaso). Deve ser por isso que só sai de lá com uma mão cheia de grandes ganchos, como o refrão desta música.
A sonoridade dos Wombats não está muito longe daquela que é debitada por Love Frame Tradedy, é verdade, mas é também evidente que Murphy quis levar este primeiro trabalho a solo mais longe do que a típica obra de cânone indie, experimentando com sintetizadores e segmentos instrumentais poderosos. E nestas paisagens sonoras de largo espectro residem triunfos sobre triunfos. Reparem bem na vitória homérica deste refrão:
E com um conselho de tom bíblico, fechamos a audição de “Wherever I Go, I Want to Leave”, que é uma coisa mesmo saborosa e inspirada, um álbum farto em quantidade e qualidade: dos 17 temas, há pelo menos uma dúzia de grandes canções. E nem é preciso escrever mais nada. O acto de ouvir é mais adequado.
Love Fame Tragedy é realmente um projecto único, que, se necessário fosse, certifica o músico inglês como um dos mais proeminentes criadores da pop alternativa contemporânea.
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