O vento barroco inventa a paisagem.
Deus abre a partitura, agita a batuta e iniciam-se as gaivotas,
em coro de trompetes.
As traineiras que chegam à doca,
arrastadas pela maré e pela combustão percurssiva do diesel,
não desafinam.
A montanha que se debruça ondulante
traz até à enseada a escala cromática de 36 violinos madrigais,
despertadores alegres do sono do mundo.
O Atlântico acorda em sereníssima majestade,
contribuindo com atonalidade eterna para a virtude sinfónica.
Enquanto o disco solar encontra o seu timbre primaveril,
duas ou três nuvens equívocas trauteiam a frase violoncelista da esfera celeste,
vibrando, melódicas, em azuis de Si Maior.
Consigo até ouvir as rosas em decaimento bemol,
por entre o zumbido concertado das abelhas e o murmúrio da terra,
que repete incansavelmente o seu refrão primordial.
O horizonte ergue-se enfim em uníssono orquestral para me saudar,
e eu – plateia de plebeus – levanto-me para a ovação redentora.
Na pauta de Antonio Vivaldi reside a última palavra de Deus.
Relacionados
14 Abr 26
Músicas que ficam: a playlist provável.
Não há critério. Não há intenção. Não há aquela preocupação meio ridícula de parecer interessante. São só músicas que ficaram com a Silvana Lagoas.
10 Abr 26
Grunge ma non troppo: Pearl Jam, Bush e Red Hot Chili Peppers.
A Discoteca da Minha Vida #19: entre Seattle, Londres e Los Angeles, três bandas perigosas para a saúde mental, mas que rasgavam guitarras sem destruir a harmonia.
13 Fev 26
Veludo alternativo dos anos 90: Garbage, Catatonia, Cake e Cardigans.
A discoteca da minha vida #18: quatro bandas que se dedicaram a acariciar os tímpanos da audiência, sem perderem criatividade nem irreverência nem personalidade nem balanço por causa desse meigo altruísmo.
22 Jan 26
Entre a dança e a depressão: electrónicos, minimalistas e outros desalinhados.
A discoteca da minha vida #17: Stereo Mc's, Portishead, Morphine e Freak Power, ou os anos 90 condensados num loop entre a angústia e a euforia.
2 Jan 26
No tempo em que acreditávamos no futuro.
No tempo em que acreditávamos no futuro éramos capazes de grande aparato filarmónico, com uns quantos acordes apenas. E em plena Guerra Fria, a pior tragédia do rock era a dor de corno.
10 Dez 25
Cinco belos Cânticos de Natal.
Uma mão cheia de venerandos hinos natalícios que captam a expectativa que devemos sentir nestas semanas que antecedem o Natal.





