Comerás o pão com o suor do teu rosto,
Até que voltes à terra de onde foste tirado;
Porque tu és pó e ao pó voltarás.
Genesis 3:19

Os testamentos não foram escritos para que vivas feliz, mas para melhor saberes lidar com o sofrimento inerente à existência.
Feliz é o homem que persevera na provação.
Tiago 1:12
Mais que um livro, a Bíblia é uma enciclopédia. Encerra centenas de narrativas, milhares de personagens, provérbios e profecias, cataclismos e calamidades, poemas eróticos e épicos, parábolas e epístolas de toda a ordem. Curiosamente, as escrituras não desenvolvem assinalável filosofia sobre o prazer, a alegria ou a felicidade. O objectivo é que aprendas, pelo contrário, a viver com as mais que certas e muitas vezes terríveis dores da existência; com as injustiças, os mistérios e as angústias que, na clara convicção dos redactores dos livros sagrados, constituem a grande constante do universo. E é nessa convicção que reside a pertinência da Bíblia: mesmo que não acredites em Deus tens aqui um excelente manual de normas para sobreviveres a um cosmos difícil, cuja natureza ameaça o teu frágil balanço emocional e transcende largamente a tua capacidade cognitiva.

Porque Adão e Eva não tinham umbigo, o primeiro mamífero da espécie Sapiens é na verdade Caim. Nada mais, nada menos que um fratricida.
Quem matar Caim sofrerá vingança sete vezes.
Génesis 4:15
Adão e Eva são produtos de directo fabrico divino e, assim, não biológico. No sentido técnico, que não é despiciendo, não são mamíferos. São uma espécie de autómatos sem consciência de si, até que cedem à tentação de provar dos frutos da Árvore do Conhecimento, e por esse atrevimento serão condenados a uma árdua existência. A raça humana na verdade inicia-se apenas com a prole deste infeliz casal e sendo que o primogénito é Caim, assassino rematado do seu irmão Abel, ficamos avisados acerca da orgia sanguinolenta que vai manchar a narrativa daqui para a frente. Ficamos esclarecidos sobre o potencial de vilania que existe em cada um de nós. Mas também sobre os limites da justiça: Deus mostra-se severo para com Caim depois de saber do seu bárbaro cometimento. Mas, naquele que é o primeiro acto de corrupção judicial da história da humanidade, ameaça com violências septuplicadas qualquer tentativa de aplicação de castigo proporcional sobre o seu infame neto. E é por isso que a razão divina, sendo uma fonte do Direito, deve ser criteriosamente inquirida pelo zelo do legislador.

Não é por seres íntegro, justo e temente a Deus que a tua vida fica mais fácil.
Queres reduzir a nada a minha justiça?
Queres condenar-me para te justificares?
Job 40:8
O Livro de Job é um dos mais discutidos e surpreendentes textos do Antigo Testamento. Transformado em mercadoria de casino por uma estranha aposta entre Deus e o Diabo e enclausurado numa tenebrosa galeria de horrores, Job, o mais fiel dos crentes, o mais justo dos homens, o mais próspero e amado senhor do oriente, vê num só dia o seu património aniquilado, o seu gado sacrificado, os seus servos exterminados e toda a sua prole extinta. Leproso, abandonado pela mulher, vilipendiado pelos irmãos e traído pelos amigos, o desgraçado arrasta-se em agonia por uma desventura que, de tão cruel e imerecida, pertence ao domínio do surreal. Job mortifica-se e pergunta-se pelos males que possa ter cometido para ser sujeito a semelhante conjunto de cataclismos. Mas é a sua resiliência, a sua resignação a um destino cujas leis não domina, que impressionam e que acabam por salvá-lo. No fim da história, Deus ganha a aposta que fez na fidelidade de Job e compensa-o finalmente, com redobrado património, dez filhos e a redenção social. O que foi entretanto sacrificado, em vidas e bens, passa a nota de rodapé e o herói nunca chega a perceber porque raio foi atingido por semelhante vendaval ontológico. Deve permanecer insondável o mistério do sofrimento.

Ao contrário dos tratados de sociologia, as escrituras não atribuem responsabilidade ao colectivo: se a tua tribo degenera ou é aniquilada, a culpa só pode ser tua.
Cada um morrerá por seu próprio erro.
Jeremias 31:30
Do Dilúvio à Torre de Babel, de Sodoma a Gomorra, o Antigo Testamento insiste num princípio básico: dado o holocausto, a culpa é tua. É a tua exclusiva degenerescência moral que conduz à degenerescência moral – e funcional – da sociedade. Por isso, não adianta protestares com as injustiças do mundo enquanto não acabares completamente com a mais remota hipótese de seres injusto. Não adianta assinalares a vilania dos outros enquanto procuras justificar a tua própria. Em vez de te queixares da tua sorte, age eticamente de forma a erradicar a aleatoriedade da tua vida. Na medida em que é pelos teus actos e pelas tuas palavras que serás julgado, comporta-te com os outros como gostarias que os outros se comportassem contigo e usa o dom do discurso com sabedoria e sensatez. Esse é o melhor método para manter os monstros no seu devido perímetro de trevas. Esse é o único processo que contribui com eficácia para que na tua cidade consigas, ao contrário de Abraão em Gomorra, encontrar um punhado de justos homens. Porque o apocalipse é isso mesmo: a ausência de homens justos.

Em nenhum dos Dez Mandamentos se lê: “Não matarás”. No hebraico em que foram escritos o que se interdita é o assassinato.
Eu sou o Senhor teu Deus, que te fiz sair da terra do Egipto, da casa da servidão.
Êxodo 20:2
Os Dez Mandamentos constituem um elogio ao bom senso de tal forma eloquente que ainda hoje, algumas das principais leis morais e jurídicas permanecem fundadas nestes breves versículos do Êxodo. Por isso, sempre que um pacifista secular atira contra a convicção cristã o célebre Quinto Mandamento, está nitidamente armado em parvo porque no hebraico original o acto que se interdita é o assassinato. Num texto que respira sabedoria como este, não faria sentido obstar à legítima defesa ou à utilidade civilizacional da guerra (sendo certo que os soldados não se assassinam uns aos outros). Mais a mais, Deus tem outras prioridades: antes deste imperativo, que surge apenas no 13º versículo, já tinha proibido o culto de outros deuses, a arte sacra, a vã invocação do seu nome, o trabalho ao sábado e a proverbial insolência dos adolescentes. Afinal, há mais coisas no céu e na terra do que sonha a literatura policial.
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