
“Matar uma pessoa é o máximo que se pode fazer-lhe.”
Matthew White

Entre a Segunda Guerra Médica (a da célebre batalha de Termópilas), em 480 a.C., e a Segunda Guerra do Congo na transição entre os séculos XX e XXI, o autor disseca mortandades, geografias, cronologias e detalhes logísticos e militares, dando voz ao monumental sofrimento dos povos que, inexoravelmente, definiram cada época histórica.
Apesar de se dedicar à grave tarefa de contar cadáveres, providenciando um severo relatório sobre a escuridão do coração humano, Matthew White mantém o seu fino sentido de humor, mesmo na trincheira das piores chacinas, enquanto oferece aos leitores a oportunidade para tirarem as suas próprias conclusões, baseadas em números que, por natureza, não são equívocos, mesmo quando derivam de simples estimativas.
E através da leitura deste manual de trevas, aprendemos muitíssimo. Ao contrário do que supomos, as guerras entre estados têm matado menos gente do que as que são travadas por hordas tribais, falanges nacionalistas, milícias de mercenários, bandos de bandidos, colunas de bárbaros, legiões de escravos, esquadrões revolucionários ou exércitos confederados.
Ao contrário do que supomos, o caos é pior que a tirania: os maiores genocídios da história tendem a resultar da quebra da autoridade, mais do que do exercício da autoridade.
Ao contrário do que supomos, o mundo político foi e é extremamente desorganizado. As estruturas de poder tendem a ser informais e temporárias. Muitos dos protagonistas deste livro, homens como Estaline, Cromwell, Tamerlão, César ou Aníbal, exerceram a autoridade suprema sem deterem um cargo formal no governo.
Ao contrário do que supomos, a maior parte das guerras não se iniciam de forma clara, com declaração e mobilização (ou o inverso) e não terminam com rendições e tratados. Os soldados e as nações mudam, sem qualquer problema, de lado a meio das guerras. Por vezes, até a meio das batalhas.
Ao contrário do que supomos, a guerra mata mais civis do que militares e o soldado tem, geralmente, a profissão mais segura que se pode ter em tempos de guerra.
Ao contrário do que supomos, a grande parte dos maiores criminosos da história morrem pacificamente, de velhice.
Ao contrário do que supomos, a violência genocida é o maior motor da história e podemos afirmar tranquilamente, perante a mais erudita assembleia de sábios, que uma das mais decisivas personalidade do Século XX foi um serial killer, isto apesar de ser directamente responsável pela terminação de apenas um desgraçado: ao enviar para o inferno o Arquiduque Franz Ferdinand, Gavrilo Princip coloca em movimento uma cadeia de acontecimentos que vai gerar cerca de 80 milhões de mortos.
O Grande Livro das Coisas Horríveis é uma pérola e uma poderosa arma intelectual que podemos usar para desconstruir por completo o humanismo pegajoso e ingénuo que reina sobre o pensamento e o discurso sócio-político contemporâneo. E também para reforçar uma evidência que já está demonstrada desde a antiguidade clássica (Anaximandro): a destruição é “justa” e necessária, porque está intimamente relacionada com a criação. É necessário que caiam impérios para existirem impérios, e assim sucessivamente até ao fim da literatura, quero dizer, da humanidade.
Mas, muito para além da atrocitologia (a ciência histórica das atrocidades humanas), Matthew White leva o processo estatístico aos 360 graus do horizonte histórico: no seu magnífico portal Historical Atlas of the Twentieth Century este sábio das contas de somar óbitos reduz – ou amplia – tudo aos números. E estes falam com eloquência sobre o passado e sobre o futuro. Afinal, se a História existe, é para que se aprenda com ela.
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