
É apenas natural que o presente adultere o passado. Os códigos morais, políticos e académicos de hoje vão sempre moldar a ideia que fazemos do mundo pretérito. Isto é pacífico, no contexto subjectivo e fluído da condição humana e da contingente influência das culturas e ideologias dominantes na construção da memória colectiva.
O que não é natural nem aceitável, embora seja completamente um sinal aberrante dos tempos que vivemos, é utilizar achados arqueológicos como forma de promover conceitos pós-modernos que nem sequer existiam à data das evidências em estudo.
Por exemplo: o conceito de “género”, como é estabelecido nos dias que correm, não tem mais que cem anos ou coisa que o valha. É um produto existencialista, fabricado no princípio do século XX pelas correntes marxistas e feministas que triunfaram nas academias após a Primeira Guerra Mundial e sobre o mainstream da consciência colectiva a partir dos anos 60.
Assim sendo, afirmar, sem qualquer evidência, que o túmulo de uma mulher euroasiática do século XII, por incluir armamentos, confirma a tese das mulheres guerreiras e faz prova da transexualidade na sociedade Viking é um disparate pernicioso que só tem como virtude cumprir a agenda radical e surrealista das academias e do jornalismo de ciência contemporâneos.
No caso específico deste paper, carregado de preconceitos woke e cujas conclusões são de uma fragilidade deprimente para um trabalho académico, até a atribuição étnica está errada, entre uma catadupa de falsos factos, que os autores inventam despudoradamente:
– A aristocrata não é viking, será mais provavelmente ‘Rus;
– O facto do seu túmulo conter armas não faz prova de que se trata de uma guerreira, já que estas podem funcionar (e funcionam em inúmeros casos da antiguidade e das idades médias) simbolicamente, para definir uma linhagem, ou materialmente, como protecção no contexto da vida depois da morte.
– Entre os milhares de túmulos de indivíduos da Eurásia já desenterrados, este é um caso isolado. Em 99,9% dos achados arqueológicos, as armas são encontradas nos túmulos de homens.
– Especificamente na Câmara de Birka, foram encontrados 1100 túmulos. Apenas 75 continham armas. 74 eram de homens.
– A afirmação peremptória de que este túmulo traduz uma sociedade fluída em termos de género, com miscigenação de papeis sociais, desvalorização das determinantes decorrentes do sexo biológico e consequente ocorrência de transexualidade não tem qualquer vestígio de evidência material ou genética que seja proveniente das escavações em causa. É apenasmente um produto teórico de valor especulativo.
E como sempre acontece na relação contemporânea entre a academia disfuncional e os media subservientes, o resultado de papers sofríveis é catastrófico:
Tudo isto não passa de pseudo-História. O equivalente escolástico de um conto de fadas. Num contexto académico normal, este paper seria rapidamente conduzido ao caixote de lixo da mediocridade, a que pertence completamente. Mas embrulhadas como estão no colete de forças politicamente correcto em que as universidades se enfiaram de livre vontade, tudo é possível.
Carl Benjamin disseca e analisa com profundidade o triste episódio, que ilustra bem a pobre qualidade da actual produção científica de Cambridge e expõe de forma cristalina a histeria LGBT das academias e da comunicação social.
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