
O demónio regressa ao inferno sete vezes.
Uma das histórias mais famosas que Giovanni Boccaccio (1313-1375) conta no seu eterno “Decameron” é a do modo como a inocente virgem Alibech aprendeu com o monge Rustico a colocar o demónio no inferno. Para a preparar para a lição, ele despiu-se e disse-lhe que fizesse o mesmo. Perante a nudez do monge, pergunta a donzela:
– Rustico, que é isso que vejo saliente à vossa frente e que eu não possuo?
– Oh, minha filha – explicou Rustico -, isto é o demónio, sobre quem te falei. Agora podes vê-lo com os teus olhos. Inflinge-me uma tal dor que quase não a suporto.
– Louvado seja Deus! – Disse a rapariga. – Eu estou em melhor situação do que vós, pois não possuo tal demónio.
– É verdade – replicou Rustico -, Mas possuis outra coisa que eu não possuo e tem-la no lugar desta.
– Oh! – exclamou Alibech. – E o que é?
– Possuis um inferno – disse Rustico -, e acredito plenamente que Deus te enviou até aqui para a salvação da minha alma. Uma vez que este demónio me inflige tanta dor, poderias ter piedade de mim, permitindo-me que voltasse a colocá-lo no inferno. Proporcionar-me-ia um grande conforto e prestarias um grande serviço a Deus, fazendo-O feliz, que, de acordo com as tuas palavras, era o teu objectivo ao vires até aqui.
– Oh, padre – disse a rapariga de boa fé -, uma vez que possuo o inferno, vamos fazer como desejas e o mais depressa possível.
– Que Deus te abençoe, minha filha – disse Rustico. – Vamos então pô-lo de volta no inferno para que me deixe em paz.
Ao dizer isto, conduziu a rapariga até uma das camas e indicou-lhe a posição que deveria tomar para encarcerar o maldito demónio. A jovem, que nunca antes pusera um único demónio no seu inferno, sentiu uma ligeira dor da primeira vez e, por isso, disse a Rustico:
– Este demónio deve ser certamente alguém malévolo e um verdadeiro inimigo de Deus, padre, pois não só magoa os outros, como magoa também o inferno quando é de novo lá colocado.
– Minha filha – disse Rustico -, não será sempre assim. – E para provar que o não seria, colocaram-no de novo no inferno sete vezes antes de saírem da cama.
O amiguinho vence o grande prémio.
No seu romance “O Falecido Senhor Shakespeare”, Robert Nye conta a história de um velho actor que, cinquenta anos depois da morte do primeiro bardo britânico, decide escrever a sua biografia. Tendo como base um conjunto de caixas contendo as mais estranhas revelações, apresenta uma obra de cem capítulos, escritas de uma forma que é tão prodigiosa como o biografado, e tão alucinada como o biógrafo. Às páginas tantas, o pai de Shakespeare é retratado como um alcoólico degenerado se bem que mostre um optimismo impenitente e a autoconfiança desmedida dos alienados da vida, condição ilustrada neste hilariante episódio:
John Shakespeare adormece à porta da taberna. Está bêbedo e tem o amiguinho de fora. Passam dois meninos de coro de Heicroft e atam-lhe uma fita encarnada. Quando John acorda e vê a fita diz para a pila: sabe deus por onde andaste ou o que fizeste, mas apraz-me que tenhas ganho o primeiro prémio.
Nani e a qualidade de serviço.
Nesta maravilhosa tabuinha com 4 mil anos, escrita em caracteres cuneiformes e língua acádia, encontramos o primeiro registo histórico de um cliente queixoso. Nani, um empresário da Mesopotâmia, reclama e protesta com um tal de Ea-nasir, a quem terá comprado lingotes de cobre de qualidade inferior. Não é apenas a virtude do produto que está em causa: o serviço pós-venda também deixa bastante a desejar.
Na tradução do assiriólogo Leo Oppenheim, Nani, que vê rejeitada a intenção de ser reembolsado, mostra a sua indignação com veemência:
Por quem me tomas para me tratares com tal desdém? Enviei como mensageiros senhores como nós para receberem o pacote com o meu dinheiro, mas foram tratados com desprezo, voltando de mãos vazias e por território inimigo.
Há alguém entre os comerciantes que negociam com Telmun que me tratasse de tal maneira? Só tu tratas os meus mensageiros desta forma!
Tem em mente que a partir de agora não aceitarei qualquer cobre que não seja de boa qualidade, selecionarei e levarei os lingotes individualmente e exercerei contra ti o meu direito à rejeição porque me trataste com desprezo.
A pequena tábua está actualmente em exposição no British Museum.
Eduardo Lourenço e as inconveniências da Bíblia.
Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, a sua mulher e a seus filhos, a seus irmãos e irmãs, mesmo a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.
Lucas 14:26
Muito deve a realidade editorial portuguesa a Frederico Lourenço: trouxe-lhe a voz de Homero e a de muitos poetas helénicos. Está a trazer-lhe a voz dos profetas judaicos e a do messias Cristão. Como tradutor e ensaísta, é uma figura de proa da cultura portuguesa e em “O Livro Aberto: Leituras da Bíblia” percebemos porquê. As questões que este breve conjunto ensaístico traz a lume, ardem intensamente. Por exemplo: Os evangelhos foram escritos numa língua – o Grego – que, muito provavelmente, Cristo não dominava. É necessária pois a devida cautela na análise do texto original, e tentar paralelos entre o grego e o aramaico, à procura de soluções de compromisso que façam melhor luz sobre as mais enigmáticas palavras do nazareno.
Outro exemplo: A Bíblia, nos dois testamentos, reconhece que os homens não são iguais entre si, mas apenas perante Deus. Razão pela qual a Constituição americana permite articular a igualdade do homem enquanto não apresenta qualquer restrição à escravatura. Na Bíblia, a escravatura ou a servidão não são males em si mesmos, porque a equalização final só ocorre depois da vida e em função de um julgamento final. Um escravo pode ser um crápula da pior espécie, e assim acabará eternamente no inferno, e um esclavagista pode ser um santo com lugar vitalício no paraíso, apesar das probabilidades da lógica evangélica apontarem para um resultado inverso. O que importa é percebermos que os contextos históricos dominam os preceitos morais, e assim são mais importantes do que as modas do bem pensar académico para a exegese lúcida e honesta.
E ainda outro episódio, dos muitos e interessantíssimos assuntos que este fascinante ensaio coloca em debate: de uma maneira geral, as igrejas cristãs fizeram da família a pedra de toque da sua teologia e, em muitos casos, de Maria uma figura central do seu palco sagrado. Jesus, porém e nos quatro evangelhos, parece extremamente desinteressado e distante do seu núcleo familiar, desvalorizando o papel da sua mãe, evitando os irmãos e chegando até ao ponto de recusar potenciais seguidores e discípulos que não declarem odiar os seus familiares directos (!). Esta última questão tem muito que se lhe diga e o ContraCultura voltará a ela.

A música como máquina de caos.
No seu prodigioso “O Resto é Ruído – À escuta do Século XX”, Alex Ross dedica-se à tumultuosa história da música contemporânea, dos fins do Século XIX até ao ano 2000. Na colorida descrição que faz das estreias das obras de ruptura harmónica e composição atonal de Schoenberg, Debussy e Stravinsky, ecoam gargalhadas, pateadas e apupos, cenas de pancadaria eclodem nos mais prestigiados e venerados auditórios de Paris, Viena e Milão. As cadeiras eram desencaixadas dos seus apoios, ouviam-se apitos estridentes e assobios histriónicos, ameaças e ordens de silêncio era cuspidas sobre a orquestra, deserções em massa do público e ataques histéricos colectivos eram recorrentes, de tal forma estranha e incompreensível soava a música destes pioneiros. A certa altura, Ross descreve o comportamento de um crítico que, animicamente derrotado pela insustentável bateria de acordes atónicos que provinha da orquestra, prende à sua bengala o lenço branco que trazia na lapela e usa o improvisado ícone de rendição para implorar pela paz do silêncio.
As três primeiras estreias de composições escritas por Arnold Schoenberg, entre 1907 e 1908, são assim retratadas:
Nada nos anais do escândalo musical, desde a primeira noite da sagração da primavera, de Stravinsky, até ao lançamento de Anarchy in the UK, dos Sex Pistols, rivaliza com o tumulto que acolheu Schoenberg no início da sua carreira. Em fevereiro de 1907, o seu ‘Primeiro Quarteto para Cordas’, espinhoso e contrapontístico, embora ainda não atonal, foi escutado tendo por fundo um vigoroso astinato de gargalhadas, de vaias e de assobios. Mahler, que saltou logo em defesa de Schoenberg, quase andou ao soco com um dos agitadores. Três dias depois, a ‘Primeira Sinfonia de Câmara’ provocou um abanar de cadeiras, um soprar de apitos e saídas ostensivas da sala. Quando da estreia do Segundo Quarteto, em Dezembro de 1908, o crítico Ludwig Karpath foi incapaz de esperar pela manhã seguinte para dar a conhecer o que sentia e vociferou: ‘Parem! Já Chega!’ Um outro crítico, simpatizante de Shoenberg ripostou: ‘Silêncio! Continuem a tocar!’
Sabemos hoje que a música a que não estamos habituados provoca, regra geral, um incómodo no cérebro humano, que tem que desactivar sinapses rotineiras e criar novas. Além disso, os estranhos acordes criados por estes compositores vanguardistas reverberavam nos tímpanos de forma bastante incómoda para o ouvinte, criando sensações análogas às que experimentamos quando somos encadeados por um raio de luz ou incomodados por um arranhão na pele. Essa irritação tornava-se endémica, no contexto colectivo de uma sala de espectáculos, promovendo a histeria.
Três primos em guerra.
Em “Os Três Imperadores”, Miranda Carter conta a história de três primos direitos, netos da Rainha Vitória, e como acabaram por se envolver num dos conflitos bélicos mais destrutivos da história da humanidade, a Primeira Guerra Mundial. O Rei Jorge V, o Kaiser Guilherme II e o Czar Nicolau II foram muito próximos na infância e na adolescência. Eram fisionomicamente parecidos, tinham interesses em comum, manias e tiques semelhantes e, já como adultos e no exercício dos seus cargos máximos, correspondiam-se com frequência e fraternalmente. Apesar de deterem graus de poder executivo e influência política muito diferentes (Jorge era apenas uma figura emblemática no contexto da democracia constitucional inglesa enquanto os seus primos exerciam, pelo menos em teoria, o poder de forma relativamente absoluta), acabaram por mergulhar os seus países num processo que em última análise implicaria a dissolução dos três impérios e a alteração regimental de duas das três grandes potências da época.
Tendo nascido num mundo em que a monarquia de base hereditária parecia imutável, e os casamentos cosmopolitas no seio das dinastias reais constituíam uma garantia de paz e de boas relações internacionais, foram precisos apenas 50 anos para que essa bolha de harmonia rebentasse e que se estabelecessem novos parâmetros de legitimação da autoridade e do governo das nações. Estes novos axiomas levaram à autodeterminação de muitos povos na Europa e no mundo, ao reforço de ideais democráticos, mas também a um imediato aumento dos índices de brutalidade e mortandade nas frentes de combate, possibilitados pelas novas tecnologias de guerra e, a prazo, ao revanchismo nazi e à sovietização da Rússia.
Na introdução a este brilhante manual de história, exemplo de como o género da biografia pode ser elevado a um olímpico patamar da literatura, Miranda Carver escreve:
Apesar de o mundo os estar a ultrapassar, os três imperadores testemunharam a alta política nas décadas que antecederam a guerra com uma proximidade inacessível a qualquer outro – mesmo que as conclusões que retiraram dos acontecimentos fossem muitas vezes erróneas. O kaiser Guilherme e o czar Nicolau orientaram os seus países para um conflito que desmembrou as suas nações, destruiu as ilusões dos seus relacionamentos familiares e resultou na sua própria renúncia, exílio e morte. Jorge observava, em geral impotente para fazer o que quer que fosse. Contudo, acabou por surgir uma ocasião em que as suas decisões tiveram consequências. Por uma terrível ironia, 1917 – o ano em que mudou de nome [de Saxe-Coburg-Gotha para Windsor], daria lugar a um desses momentos, quando teve poder sobre o futuro do seu primo Nicolau. A sua decisão [em não permitir o exílio de Nicolau em Inglaterra] demonstraria eloquentemente como a visão que a rainha Vitória tinha das relações régias – na verdade, de todo o edifício da monarquia europeia – estava irrefutavelmente arruinada.
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