
Ainda assim, este tratado não dá solução ao mistério que se propõe resolver. Na introdução, Boxer manifesta a sua perplexidade: como é que um país pobre, marginal e insignificante como Portugal consegue o milagre de dominar o mundo, fundando o primeiro império colonial de sempre; frágil, caótico, demograficamente impossível, mas de tal forma bem sucedido que acaba, pasme-se, por durar sobre todos os que lhe seguiram, sendo paradoxalmente o último império colonial a cair? A verdade é que o autor acaba por não encontrar resposta para as suas perplexidades.

Apanhado pelos ventos da história (o livro foi publicado em 1969 e usado por detractores do império colonial português, tanto como pela propaganda do Estado Novo), C. R. Boxer cai num erro de colegial que compromete, no meu entender, a virtude da sua erudição: recusa-se a perceber que ao historiador não compete ser juiz. O contexto social, ético e cultural dos descobrimentos portugueses não pode ser avaliado à luz da moral do século XX. E assim, erradamente, os portugueses são-nos apresentados como um povo ferozmente anti-semita e alegremente esclavagista, constituído em grande parte por fanáticos religiosos. Na verdade, os portugueses não eram seguramente católicos mais fanáticos que os espanhóis, não eram mais anti-semitas que a maior parte dos povos europeus da sua altura, nem viam a transacção de carne humana com melhores ou piores olhos que os seus adversários directos na corrida pela liderança do comércio no Atlântico setecentista.
Acresce que a mentalidade WASP do autor está sempre presente: quando os ingleses e os holandeses roubam, trata-se de corso. Quando são os portugueses a pilhar, trata-se de decadência, corrupção e de um inevitável decaimento latino para a desonestidade. Um problema que, pelos vistos, é comum a uma certa historiografia contemporânea.
Toda a obra, mas principalmente a sua segunda parte, é de tal forma deprimente e eloquente sobre a desorganização e disfunção do império que o autor não consegue perceber como é os Descobrimentos foram sequer possíveis. Os reis são sem glória nem visão (até D. João II é um incompetente e o único que escapa é Filipe II, que é de qualquer forma grandemente ignorado durante toda a obra) e basicamente nunca houve soldados, marinheiros, geógrafos, capitalistas e frotas em quantidade e qualidade que chegasse para uma aventura destas.

No caso da qualidade dos soldados portugueses, Boxer parece ignorar que a tradição militar lusitana teria, à altura dos Descobrimentos, uma herança de combatividade e competência muito assinalável, com vitórias épicas nas guerras fronteiriças e de reconquista. Na verdade, não há qualquer indício que a performance bélica fosse uma fraqueza do império. Dada a escala geográfica da gesta marítima, os parcos recursos demográficos da metrópole e o valor e a diversidade dos inimigos que enfrentámos, tudo indica, ao contrário, que as forças militares portuguesas se distinguiam pela sua eficiência, superioridade tecnológica e acutilância em combate.
As contradições entre os factos históricos e as conclusões do historiador são uma constante, à grande e à pequena escala. Por exemplo: nas páginas desta obra constatamos com surpresa que a Companhia do Brasil foi um fracasso, cujo sucesso colocou enormes problemas de sobrevivência aos portos portugueses, que sofriam como o monopólio (!).
Outro exemplo: quando os padres jesuítas dão, na China, sólidos indícios de tolerância racial, fazem-no exclusivamente por pragmatismo. Mas quando em Goa recusam a equalização étnica das carreiras eclesiásticas imposta por Pombal, já não são apenas ambiciosos. São racistas da pior espécie.
É também recorrente a afirmação de que os portugueses eram um povo ignorante, conservador, alérgico à mudança, ficando o leitor sem perceber, mais uma vez, como é que esta tribo de atrasados mentais conseguiu inaugurar uma época de inovação técnica e de aventura cosmopolita sem grandes precedentes na história da humanidade.
Perdido dentro dos seus próprios mal entendidos, C. R. Boxer, acaba o seu manual de história-para-inglês-ver explicando ao leitor que o Império Marítimo Português só foi possível dada a fé irracional em dois mitos inter-relacionados e alimentados por uma inexpugável fé católica: o do retorno sebastiânico e o do Quinto-Império.
Sinceramente, que tese tão fraquinha.
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