
“Na Alemanha, uma nova seita nascerá que irá renovar ancestrais tempos pagãos.”
Para um homem que sofria de epilepsia, gota, insuficiência cardíaca e dificuldades respiratórias (morreu vítima de um edema cárdio-pulmonar), Nostradamus (1503-1566 d.C.) foi um poeta oracular de notável prodigalidade.
Filho de judeus convertidos, foi perseguido por pragas e tragédias e preconceitos: obrigado a abandonar a Universidade de Avignon por causa da peste bubónica, perdeu a mulher e dois filhos num outro surto da mesma epidemia. Volta a casar com Anne Ponsarde, de quem teve seis filhos, o que o obrigou a trabalhar como boticário para ganhar a vida. Também por isso, foi corrido da Universidade de Montpellier porque esta profissão era, nessa instituição, deveras mal vista. Desistindo de aspirar a uma vida académica e depois de uma viagem a Itália que lhe despertou a veia profética, decidiu investir numa carreira como adivinho.
Médico, alquimista, crítico literário, conselheiro de reis, astrólogo e astrónomo, esta prolixa criatura tirou partido do seu talento poético para se dedicar a publicar almanaques que incluíam previsões sobre o estado do tempo, prenúncios de convulsões políticas, conselhos aos agricultores, horóscopos e outros presságios mais ou menos proverbiais.
As “Profecias” que o imortalizaram, publicadas em 1555, são constituídas por 942 quadras em versos decassílabos e anunciam todo o tipo sortido de guerras, pragas, catástrofes e desgraças futuras. Por ser muito dado à charada e à metáfora, a informação surge truncada de tal forma que é de uma imprecisão escrupulosa. As profecias de Nostradamus só foram episódica e discutivelmente confirmadas, quando eventos entretanto desencadeados foram colados a um qualquer dos seus versos enigmáticos e nunca ninguém conseguiu prever fosse o que fosse baseado nestes famosos prognósticos.
Apesar de nunca se ter assumido como profeta, tinha um método Zen para espreitar o porvir, que consistia em “esvaziar a alma, a mente e o coração de todos os cuidados, preocupações e incómodos através da calma e da tranquilidade mental.”
Charlatão ou mago, o que interessa é que Nostradamus inventou uma espécie de Sudoku Ontológico para as gerações vindouras, que queimaram muita pestana na vã tentativa de desvendar os seus insondáveis versos.
Pesquisas contemporâneas feitas à sua obra magna pelas universidades de Ottawa, Cambridge e Sobborne, revelam aliás que o famoso personagem se inspirava em eventos que já tinham acontecido à altura da sua vida para versar sobre factos futuros, o que não deixa de ser um método razoavelmente credível, já que, como todos sabemos, a história tem a terrível mania de se repetir.
É aliás capaz de ter sido essa metodologia que lhe permitiu, aparentemente, acertar alguns versos, como um relógio parado sempre consegue estar correcto duas vezes por dia. A previsão citada no início deste texto, que parece anunciar a ascensão do regime Nazi e que pode ter sido inspirada pela queda do império Romano às mãos das tribos germânicas, é a este título, paradigmática.
Reza a lenda que Nostradamus também adivinhou, com umas horas de antecedência, o momento da sua morte, já que informou a secretária que não o encontraria vivo na manhã seguinte, o que se confirmou. Mas dada a assinalável debilidade da sua saúde à altura desta última profecia, não podemos propriamente validá-la como decorrente de um instinto sobrenatural para perscrutar o futuro.
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