Na imagem está Bernardim Freire de Andrade (1759-1809), também conhecido por Bernardino Freire, um homem que pagou com a vida o dispendioso preço de amar a pátria. Vale a pena contar a sua história.
Quando em 1807, a mando de Bonaparte, Junot entra em Portugal arrastando um exército andrajoso, exausto e famélico, não encontra resistência. O Príncipe Regente e sua corte comprida de lacaios e curta de coragem já tinha entretanto dado ares de vila diogo para o Brasil. Na mais negra das suas páginas, o exército português, superior em número e equipamento, recusa o combate e abre alas para que os franceses entrem em Lisboa como quem chega a uma simpática estalagem sobre o Tejo.
Dados os tristes factos, são os ingleses que reagem, enviando em 1808 – sob o comando do General Wellesley – um corpo expedicionário de 13.00 homens para salvar esta pátria alheia. É aqui que surge o General Bernardino. Inconformado com a deplorável situação, agrupa 7.600 soldados e junta-se aos Ingleses acabados de desembarcar no estuário do Mondego.
Recusando incorporar os seus soldados nas fileiras britânicas, acaba por desempenhar um papel estratégico para o bom sucesso da iniciativa militar: duas ou três escaramuças depois, a força anglo-lusa coloca os franceses em debandada na Batalha do Vimeiro, a 21 de Agosto, concluindo-se assim a primeira invasão napoleónica.

Acontece que os termos da rendição imposta a Junot eram de uma benevolência tal que, antes de abandonar o país, a sua deplorável soldadesca teve a oportunidade de saquear todas as localidades incluídas no trajecto para Espanha. Os Ingleses, por seu lado, decidem permanecer numa semi-ocupação do território nacional, despreocupadamente acampados em algumas das mais importantes praças-fortes do país.
Indignado com os termos da rendição francesa e o abuso muito pouco cavalheiresco dos ingleses, o General protesta, amotina-se e morde os calcanhares a toda a gente até que a 17 de Março de 1809, os Ingleses – já cansados de tanto incómodo – o atraem a Braga e o entregam desprotegido à voracidade da turba popular, previamente “aquecida” e manipulada.
Patriota dos setenta costados, Bernardim Freire de Andrade, herói da nação, morre linchado pelo seu próprio povo.
Haverá moral para uma história destas?
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