Nos tempos que correm, Hollywood nunca deixa de surpreender. Negativamente, claro. O último tratado politicamente correcto de Ridley Scott, “The Last Duel” é um absurdo sem nome. A fita leva-nos ao século XIV francês, com toda a pompa e circunstância de produção a que este consagrado realizador já nos habitua há décadas, para contar a história de uma mulher que vive sob o tenebroso jugo de homens vis e que, por causa da vilania desses homens todos, acaba por ser violada. Neste filme, todos os homens são vilões. Aliás, neste filme, todos os personagens, mesmo as mulheres, são de mau carácter, com excepção da nossa heroína que, por sinal, só é heroína porque é violada. A heroicidade está na vitimização e em mais nada. Se “The Last Duel” fosse mais woke, rebentava.
Acontece que julgar mentalidades e códigos morais de indivíduos e sociedades que distam séculos do nosso desgraçado tempo não é só ridículo, é pernicioso. Para já porque Ridley Scott parece achar que a sua fasquia ética está muito acima daquela do Conde Pierre d’Alençon, por exemplo, o que é muitíssimo discutível e não tem maneira de ser demonstrado. Depois porque o Conde não tem como se defender, porque foi enterrado em 1404. E por último porque o contexto antropológico, ontológico, social, económico, civilizacional e consuetudinário em que d’Alençon vivia não tem nada que ver com o idílio sofisticado e milionário e securitário da Berverly Hills do século XXI em que Ridley Scott vive encapsulado.
Se o realizador de “Blade Runner” fosse sujeito ao quotidiano do Conde Pierre d’Alençon por uma semana apenas, borrava-se todo logo nos primeiros cinco minutos da manhã de segunda-feira e na terça à tarde já se tinha suicidado. Se Ridley Scott tivesse que travar somente uma batalha como se travavam batalhas no século XIV; se tivesse que suportar por uns breves dias os efeitos devastadores de uma peste como a peste que assolou a Europa no Século XIV, se soubesse por uns segundos o que é ter fome como os esfomeados da Idade Média; se fizesse uma pequena ideia da impiedosa brutalidade material, física, psicológica e sexual da vida nesses tempos remotos, o mestre seria por certo um realizador um pouco mais escrupuloso na selecção das histórias que quer contar e bem mais modesto nas suas pretensões éticas.
Mais a mais, o elenco, liderado por Matt Damon, Jodie Comer, Adam Driver e o insuportável canastrão crónico que dá pelo nome de Ben Affleck, parece que não foi contratado para representar, mas apenas para aparecer em cena e dizer os diálogos, que são técnica e criativamente de uma pobreza que não deixa de ser constrangedora. As personagens são inexpressivas, estáticas, robóticas, espécie de manequins deprimidos com saudades da loja de pronto a vestir de onde foram raptados. A história é de tal forma maniqueísta e unidimensional que aborrece ou entristece, consoante o estado de espírito com que cada um inicia o visionamento destas duas horas e meia de puro desperdício.
Para além da sua esterilidade estética e artística; para além da sua inutilidade do ponto de vista do activismo feminista (as mulheres da idade média já não podem ser salvas); para além da sua iniquidade historicista e filosófica, “The Last Duel” é uma fita que não eleva, não inspira, não dispõe bem. Serve só para que o convívio que forçosamente estabelecemos com o nosso passado seja mais difícil. Para que a relação que temos com a tradição Ocidental e o legado histórico judaico-cristão seja levada à insustentabilidade. E mesmo que os axiomas sobre os quais este filme é realizado fossem válidos – que não são – que vantagem podemos tirar disso?
Se Ridley Scott queria fazer um filme sobre a violação impune de mulheres, podia fazer um desenrolado no século XXI e focado no mundo islâmico, certo? Saia-lhe mais barato, cumpria um mais efectivo serviço à dignidade, emancipação e segurança das mulheres e não precisava de impingir moralismos rebuscados, anacrónicos, de terceira categoria. Só que para isso, falta-lhe a coragem. Coisa que abundava nos personagens que são tão mal tratados neste filme abstruso.
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