Muito de vez em quando, de entre as toneladas de lixo que a Netflix produz e impinge, encontramos uma pérola. “The Disciple” (2020), realizado por Chaitanya Tamhane e com produção executiva de Alfonso Cuarón (o realizador do maravilhoso “Roma”, de 2018). é um desses raros tesouros. Centrado no trajecto de um vocalista de música clássica indiana, ou Hindustani, e na sua busca pela perfeição técnica, criativa e espiritual, que neste género musical vai dar no mesmo, o filme deslumbra, inspira e educa.
O Hindustani é a variante de música clássica indiana do norte do subcontinente e encontra as suas raízes na literatura védica do hinduísmo, no Natya Shastra, o texto sânscrito clássico sobre as artes cénicas, escrito por Bharata Muni e no texto sânscrito do século XIII, Sangita-Ratnakara, escrito por Sarangadeva. Ao contrário do que a nomenclatura pode indicar ao leitor ocidental, trata-se mais de música ritual do que erudita e vive sobretudo da voz, sendo acompanhada por um palco sonoro minimal e repetitivo, produzido por instrumentos tradicionais de cordas e percussão.
Trata-se de um aparelho melódico bastante exótico, que podemos localizar topograficamente entre o folclore tuaregue, a ópera chinesa e o jazz norte-americano. Mas adiante.
O filme é um manifesto estético e filosófico como poucos se têm feito neste século. O ambiente cénico é marcado por planos abertos, gloriosos, cuidadosamente desenhados, que respiram um qualquer e abundante oxigénio encantatório para o olhar e alucinatório para a alma.
Os interiores, apesar disso, conseguem projectar um intimismo raro em cinema, naturalista e quase teatral, que nos projecta para o tempo-espaço da acção de uma forma meio arrepiante.
Os planos exteriores, rasgados até ao limite da percepção, longos até à delícia da sensibilidade, hipnóticos no seu movimento tântrico, são belos de fazer cair o queixo, mesmo quando retratam um ambiente urbano que oscila entre o realismo decadente e o maneirismo futurista.
O dedo de Cuarón não é com certeza alheio a esta monumentalidade cinematográfica, nem à forma pausada, muda e meio enigmática de contar a história. A fita está carregada de semântica nas entrelinhas e há pequenos gestos que pesam para além da gravidade. Silêncios que gritam. Sombras que revelam.
Embrulhado neste assombro gráfico e sintático, corre o argumento que é eminentemente Proustiano. O filme consubstancia-se numa odisseia do tempo que é perdido em busca da perfeição inalcançável. A dedicação do discípulo, a abnegação do aprendiz, a fidelidade do ingénuo vai, suspeita bem o espectador, contra a sua própria capacidade vocal tanto como contra a dúbia virtude dos seus mestres. A perseverança estoica do indivíduo que choca declaradamente contra o mundo material e as conveniências sociais e o bom senso da razão prática das coisas, acabará, passadas as necessárias décadas de perseguição idealista, na inevitável queda sobre a dura superfície da realidade. Há quem atinja o nirvana do sucesso e do reconhecimento artístico, sim. Mas esse divino prémio fica do lado dos outros. Fica cruelmente longe do eu e do agora. Sempre.
A perseguição dolorosa e prolongada não é vã, como parece, porque não deixa de ser redentora, quase ao ponto de permitir um final feliz, se é que podemos considerar a felicidade como um elemento de permanência e validade ontológica. Se é que podemos considerar que a felicidade é um objectivo legítimo da condição humana. Porque às vezes – ou quase sempre – são os fracassos e as misérias, mais que os raros triunfos, mais que as escassas glórias, os motores do destino que na verdade nos serve perfeitamente.
“The Disciple”, na Netflix. Um filme absolutamente belo. Absolutamente consolador.
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