
Antonio Lucio Vivaldi (1678 – 1741), o mestre italiano do barroco tardio e violinista virtuoso, pode muito bem ter sido, talvez, o único sacerdote na história da Igreja Católica Apostólica Romana que nunca celebrou missa. Vale a pena contar a história.
O mais velho de sete irmãos, foi cedo colocado pelo pai na Capela Ducal de São Marcos, para aperfeiçoar seus conhecimentos musicais. Depois de ter aqui terminado os seus estudos preambulares, foi admitido na orquestra da Basílica de São Marcos, onde se revelou como o mais talentoso violinista do seu tempo.
Concluindo o seminário, foi ordenado padre em 1703. Mas logo em 1704, foi-lhe dada dispensa da celebração da Eucaristia devido à sua saúde fragilizada. Vivaldi queixava-se de que sofria de asma, mas as suspeitas de um caso crónico de hipocondria são igualmente válidas, tanto como a ideia de que o compositor era avesso a ministrar os rituais católicos.

Livre das obrigações clericais e tendo na circunstância encontrado emprego como professor de violino num orfanato de raparigas – o Ospedale della Pietà, em Veneza – rapidamente criou fortes laços afectivos com as suas alunas, chegando a estabelecer relações amorosas com algumas delas e para elas compondo a maioria dos seus concertos, cantatas e músicas sagradas. Entre 1705 e 1737, os anos idílicos em que foi professor no orfanato veneziano, compôs a maior parte da sua volumosa obra: 770 partituras, entre as quais 477 concertos e 46 óperas.
Mas 34 anos depois de ser ordenado sacerdote e após abandonar o púlpito da igreja no momento da transubstanciação eucarística para anotar uma melodia que lhe ocorreu durante a cerimonia, é acusado pelas autoridades eclesiásticas de, muito simplesmente, nunca ter celebrado uma missa completa, além de se fazer acompanhar constante e indecorosamente pelas suas amantes. Proibido de cumprir contratos que tinha firmado para a época de ópera desse ano, Vivaldi fica numa precária situação financeira que o obriga ao exílio em Viena, onde Carlos VI lhe oferece a posição de compositor oficial da corte.
O seu patrono, porém, morre logo em 1740 e Vivaldi vê-se obrigado a vender os seus manuscritos para sobreviver. Morre em Viena, falido, amargurado e ignorado, no ano seguinte.
As razões que levaram o compositor italiano ao incumprimento radical das suas obrigações como sacerdote não são inteiramente conhecidas. Em sua própria defesa, numa carta endereçada ao Marquês de Montivoglio, profere duas afirmações que confirmam a acusação da igreja e são mais esclarecedoras sobre a sua excentricidade do que sobre a sua ética profissional:
“Posso sair para passear depois do jantar, mas nunca vou a pé. Esta é a razão pela qual nunca celebro missa. (…) Estive em Roma três vezes para estrear uma ópera em tempo de Carnaval, mas nunca celebrei lá missa.”
Seja como for, podemos agradecer a Vivaldi o facto de ter sacrificado o sacerdócio no altar das artes da harmonia: apesar do fim dramático a que o levou a deserção, a sua incrível e prodigiosa produção musical só foi possível num quadro de desapego ao ministério da fé.
Talvez resida nessa circunstância o poder criativo e o vendaval trágico, de intensidade angustiante, que nos eleva e aterroriza quando ouvimos o Alegro non molto do seu “Inverno”.
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