No seu canal do Youtube, que é essencialmente de intervenção política, mas que polemiza também temas filosóficos e teológicos, o documentarista e livre pensador cristão Dinesh D’Souza dedica-se amiúde ao esclarecimento da sua audiência sobre os argumentos a favor e contra a existência de Deus. O ContraCultura seleccionou três desses momentos, pela proeminência dos autores analisados e pelo claro e sucinto discurso crítico do autor americano, que promove um entendimento cristalino de matérias que são algo densas e, muitas vezes, tratadas de forma não sistematizada.
Santo Anselmo e o argumento ontológico em favor da existência de Deus.

Santo Anselmo de Cantuária foi um monge beneditino, filósofo e arcebispo de Cantuária entre 1093 e 1109. Fundador do escolasticismo, Anselmo exerceu enorme influência sobre a teologia ocidental e é famoso principalmente por ter criado o argumento ontológico para a existência de Deus e pelos seus comentários sobre a expiação. Se não vivêssemos tempos de totalitarismo ateísta, este homem teria uma estátua em cada cidade do Ocidente. Com a provável excepção de Kurt Gödel, que no Século XX demonstrou através da Teoria da Incompletude que a matemática precisa de uma elemento de transcendência para sobreviver exacta, ninguém como este genial monge conseguiu demonstrar, recorrendo apenas ao pensamento lógico, que Deus não tem remédio senão existir.
O argumento ontológico de Anselmo, ainda por cima, é de uma simplicidade que, sendo enganadora para os críticos, é deliciosa para os apologistas. O método é o seguinte:
I – Encontrar uma definição de Deus que seja universal. Não importa agora se Deus existe ou não. Pensar apenas numa definição que obtenha a concórdia de todos, ateus inclusive.
II – Neste contexto, Anselmo propõe uma definição que parece pacífica: Deus é aquele a partir do qual nada maior pode ser pensado.
III – E este Deus, de quem não conseguimos imaginar nada de superior, existe apenas na mente do homem? Certamente que não, porque se existisse apenas na dimensão abstracta não seria conceptualmente a Coisa maior que pode ser pensada.
IV – Logo, para que Deus seja aquele a partir do qual nada maior pode ser pensado, terá que existir na realidade, também.
É isto. E qualquer criança de 10 anos consegue perceber isto. Mas neste caso, a simplicidade do raciocínio não significa que a sua anulação seja tarefa fácil. Dinesh D’Souza explica em oito minutos apenas porque é que séculos de cépticos não conseguiram liquidar um dos mais sólidos princípios filosóficos – e teológicos – do Ocidente.
Ao que diz Dinesh, será talvez pertinente acrescentar o seguinte: aceitando o postulado de que Deus existe porque não conseguimos imaginar nada superior a Deus, se conseguíssemos pensar em algo superior a Deus, essa nova realidade intelectual seria por definição a entidade divina e assim sucessivamente. Escusado será dizer então que Deus existe para manter o campo de possibilidades dentro de uma constante estável, de tal forma que a realidade não entre em parafuso.
Convenhamos: esta linha de raciocínio tem implicações de largo espectro. Não é por acaso que o célebre arcebispo de Cantuária era um pensador da escola de Santo Agostinho e que este era um platónico assumido e que Heisenberg afirmou um dia que as conclusões da física quântica se aproximam mais dos postulados de Platão de que dos cálculos de Aristóteles. A teologia e a filosofia têm implicações na ciência. E vice-versa.
Não, Deus não pode criar uma pedra que não possa levantar. E daí?

Um dos argumentos mais básicos e facilitistas da história universal do ateísmo é este: se Deus existe e é omnipotente, pode criar um pedregulho de tal forma gigantesco que ele próprio não pode levantar e assim, não é omnipotente. Logo, não será Deus. O conceito de Deus é, em si mesmo, contraditório.
Isto, claro, é um raciocínio de quarta classe que S. Tomás de Aquino já resolveu há séculos atrás e que se invalida em dois minutos, à mesa de um café, antes do café chegar à mesa; mas Dinesh D’Souza, fazendo bom uso da sua capacidade retórica e o conhecimento que tem da escolástica medieval, desfaz o raciocínio de uma ponta a outra, sem deixar margem para dúvidas.
De qualquer forma, convém sintetizar:
I . Por definição, nada existe superior a Deus. Logo;
II . Deus não pode criar uma pedra que ele não possa levantar porque essa pedra não existe. Ou melhor:
II . Divina omnipotência não significa que Deus possa fazer seja o que for. Significa que Deus pode fazer tudo o que lhe seja possível fazer. A criação de algo que transcenda os seus poderes será impossível porque nada supera a sua existência (não confundir aqui o que é possível para Deus com o que é possível para o Homem). E assim:
IV . O facto de Deus não poder criar uma pedra que não possa levantar não é um argumento a favor da sua falência lógica, mas sim o resultado lógico da sua omnipotência.
Está resolvido o problema, que não chega a ser um problema, tanto como é uma idiotia.
O irónico aqui é que até na conversa interessantíssima de Dinesh residem pistas para que os ateus que tentam desmontar a existência de Deus não pareçam tão néscios assim. Por exemplo: pode Deus alterar o passado? Pode Deus transformar uma mulher que gerou filhos numa virgem (não confundir com o caso de Maria, que é inverso e que não tem implicações no eixo cronológico da existência)? Pode Deus permitir que a raça humana, sua criação, se liberte da sua esfera através do ateísmo generalizado ou da evolução tecnológica (inteligência artificial, poderes biónicos divinos ou sem-divinos, etc.)? Porque ofereceu Deus o livre arbítrio ao Homem, sabendo perfeitamente que o resultado dessa liberdade é, recorrentemente, o horror?
Estas questões também têm respostas certeiras, mas pelo menos dão mais prazer intelectual a formular.
Assim, fica só o ateísmo niilista a falar sozinho, no seu labirinto de equívocos.
Immanuel Kant e o livre arbítrio.

“A causalidade de acordo com as leis da natureza não é a única da qual todas as aparências do mundo podem ser derivadas. Também é necessário assumir outra causalidade, a da liberdade, para explicá-las.”
Immanuel Kant . Crítica da Razão Pura . 1781
O século XXI virou os fundamentos ideológicos de pernas para o ar. E uma das inversões filosóficas mais evidentes é a do livre arbítrio. Até aqui, enquanto a direita esteve mais inclinada a pensar que um Deus omnipotente e omnipresente invalida ou limita a acção do indivíduo sobre o seu destino, a esquerda acreditou durante séculos no poder supremo da vontade colectiva sobre desígnios insondáveis ou condicionantes místicas.
Hoje em dia, porém, a esquerda coligou-se com a alta burguesia ateísta e materialista, que procura impingir a dogmática ideia de que o homem não tem qualquer liberdade de escolha, muito simplesmente porque é um escravo de contigências transcendentes relacionadas com as leis estruturantes do cosmos e de interacções neuronais que acontecem aleatoriamente dentro da sua caixa encefálica. Da mesma forma que não podemos controlar o trânsito intestinal, também não temos como interferir no movimento electro-químico do cérebro e assim, estamos condenados a um outro insondável determinismo: o biológico.
Simetricamente, a direita contemporânea, progressivamente mais libertária e menos determinista, tem vindo a centrar-se filosófica e teologicamente numa ideia de Deus como entidade criadora, que deixa à responsabilidade moral do indivíduo as escolhas – boas ou más – que faz no percurso da sua existência e – logo – o resultado final da ontologia e da antologia humanas.
E se temos dúvidas entre as duas teses, nada como Immanuel Kant para nos lançar no bom caminho. Como Dinesh D’Souza explica no clip em baixo, o argumento do filósofo de Königsberg em favor do livre arbítrio é muitíssimo simples, muitíssimo claro, e de difícil negação: sendo certo que o juízo moral é inerente ao homem, o livre arbítrio tem que ser uma realidade. Ou melhor: se todos nós oscilamos nas nossas vidas e a cada momento entre o dever e o fazer, é porque temos essa liberdade de escolha. É nesse dilema comportamental, de natureza ética, que reside a prova de que somos seres livres, caso contrário, o dilema não existiria nunca. Em cada acção, há um problema moral. Logo, em cada acção, há liberdade para transformar o destino.
E é essa liberdade que dá consistência à criação, elimina falsas contradições sobre a existência de Deus e oferece e um fio lógico à convicção Cristã.
Relacionados
30 Ago 26
Hegel Entre a Razão Sistemática e o Mistério do Real
Celebrar Hegel é reconhecer que o seu pensamento continua vivo e em processo. A dialéctica não se esgota na obra do mestre de Estugarda; ela exige ser continuada, repensada, talvez mesmo traída para ser fiel ao seu espírito mais profundo. A revisitação de António Justo.
28 Ago 26
Legisladores de Massachusetts lançam programa DEI que dá prioridade a Muçulmanos no recrutamento de funcionários públicos.
Uma proposta legislativa no Massachusetts estabelece uma comissão exclusivamente islâmica que dá prioridade à contratação de muçulmanos para cargos no governo estadual, levantando preocupações sobre o favoritismo religioso e a igualdade de tratamento perante a lei.
27 Ago 26
As Cinco Vias de S. Tomás de Aquino
Os cinco célebres argumentos em favor da existência de Deus, equacionados pelo teólogo mais influente na história da Igreja Católica.
20 Ago 26
Com Deus a Janela é Maior
O problema começa quando imaginamos que a nossa janela é o mundo. Mas nenhuma perspectiva humana contém a paisagem inteira. Nesse horizonte, a fé não precisa de ter medo da razão e a razão não precisa de ridicularizar a fé. Um ensaio de Antonio Justo.
15 Ago 26
Da Ontologia do Domínio à Ontologia da Relação
A vida não nos entrega um projecto acabado. Entrega-nos relações. E assim, se a antiga ontologia perguntou sobretudo o que é o ser, uma ontologia relacional terá de acrescentar: como é que o ser se torna na relação? Um ensaio de António Justo.
11 Ago 26
Epicteto e a libertação face ao poder da tirania.
O poder é a capacidade de controlo sobre o que valorizamos. Assim, o segredo para nos libertarmos da influência de qualquer tirania é valorizar aquilo que podemos controlar sobre aquilo que não podemos.





