
“Give me the liberty to know, to utter, and to argue freely according to conscience, above all liberties.”
John Milton . Areopagitica
“Power is in tearing human minds to pieces and putting them together again in new shapes of your own choosing.”
George Orwell . 1984
Chegados à terceira década do século XXI, concluímos que os indivíduos da espécie Sapiens fazem basicamente tudo o que lhes for comandado, não importa quão absurdo ou imoral, desde que o comando provenha de um político, de um burocrata, de um cientista ou de um jornalista. Em troca de proteção contra ameaças relativamente triviais, sacrificamos com surpreendente facilidade e descontração a nossa liberdade e permitimos o surgimento do totalitarismo.
Uma das causas primeiras desta obediência cega reside na operação draconiana dos meios de comunicação social, que manipulam e distorcem a informação, e das corporações tecnológicas, que controlam e censuram o seu fluxo na web. Estes dois motores de conformidade tornaram possível um uníssono inédito na história do discurso humano, constituindo um sólido paradigma para a prossecução de ideologias que favoreceram o controlo centralizado, de cima para baixo. Apesar da Web ser acessível a biliões de pessoas, a informação que nela circula é controlada por uma percentagem ínfima de indivíduos, fenómeno de natureza oligárquica cuja disparidade estatística é, historicamente, inédita.
Este fluxo limitado, filtrado e unidirecional da informação, servido às massas crédulas como verdade absoluta, cria uma situação análoga à alegoria da caverna de Platão. Nesta alegoria, os prisioneiros são acorrentados numa caverna e forçados a ver a dança das sombras nas paredes. Sem saber melhor, os prisioneiros confundem as sombras com a realidade.
E aqui residirá, talvez, a redenção da Internet. De cada vez que um indivíduo mais acordado, de cada vez que um dissidente determinado, de cada vez que uma mente curiosa identifica, recorrendo a critérios mais exigentes de navegação electrónica, a corrupção das “autoridades” institucionais e vê para além do muro de mentiras; de cada vez que alguém num dado momento conclui que o que pensa ser verdade é apenas a um reflexo manipulado e distorcido da realidade, abre-se uma brecha no muro totalitário. Tanto mais que essa descoberta individual pode ser partilhada com vastas audiências. Neste sentido, e apesar do esforço titânico e tirânico das Big Tech, a Web está a acabar com o monopólio que os meios de comunicação social convencionais detinham sobre o fluxo de informação.
Porém, como essa dissidente e quase clandestina circulação informacional ameaça a visão parasita e controleira dos que ocupam as posições de poder, devemos esperar um aumento na intensidade da censura, na tentativa de nos forçar a voltar à caverna de Platão. Esta reacção será justificada como necessária para limitar o “discurso de ódio”, mesmo quando praticamente inexistente, e corrigir a “desinformação”, embora estes rótulos plastificados sejam não mais que isso mesmo: a embalagem usada para esconder o acto socialmente destrutivo de restringir a liberdade de expressão com o objectivo de proteger os interesses da oligarquia.

Esta não é a primeira vez que se tentam limitar os fluxos informacionais emergentes de novas tecnologias de comunicação. Após a invenção da imprensa, as classes dominantes da Europa implementaram duras leis de censura. Um exemplo entre muitos é a da Ordem de Licenciamento Inglesa de 1643, que ordenou a prisão de quem imprimia livros críticos do governo. Mas o poder da imprensa provou ser demasiado forte e os seus efeitos não puderam ser contidos por mandatos das classes dominantes. Logo em 1644 John Milton publicou “Areopagitica, Um discurso do Sr. John Milton pela liberdade de impressão não licenciada, para o Parlamento da Inglaterra”, um texto que se opunha eloquentemente ao licenciamento e à censura e que está entre as defesas filosóficas do direito à liberdade de expressão mais influentes e apaixonadas da História.
É no entanto bem possível que, se formos demasiado passivos e não tomarmos uma posição dura contra as tentativas de sufocar a liberdade de expressão, esta revolução tecnológica seja diferente daquelas passadas. Até porque a oligarquia que tomou o poder contemporâneo é tecnologicamente sábia e utiliza com mestria os novos instrumentos de propaganda ao seu dispor. Os detentores do poder usam e continuarão a usar com agressividade e eficácia crescente este novo paradigma a seu favor e, em vez de nos libertarem, as tecnologias digitais serão a ferramenta que nos levará ao terror público e ao inferno privado de um totalitarismo global tecnocrático.
A questão central permanecerá, portanto, na esfera do indivíduo, e do que ele for capaz de fazer para defender os seus direitos naturais e a consequente possibilidade de uma existência digna e próspera, assente no mais sagrado dos princípios fundamentais: o livre arbítrio.
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