“O Golfe de competição é jogado principalmente num campo com um palmo de comprimento: O espaço entre as tuas orelhas.”
Bobby Jones
Não parece, mas o golfe é um desporto de masoquistas. De endinheirados masoquistas, regra geral, mas nem por isso menos adeptos do mal estar de corpo e alma. Jogo de planeamento em tempo real e precisão sobre-humana, castiga severamente os atletas por pequenos lapsos, atira-os para o inferno dos bancos de areia e a malária dos lagos, para a ratoeira dos bosques e a maldição dos ventos; todos e mais algum instrumentos de tortura criados por sádicos arquitectos e outros grandes diabos da paisagística.
Provavelmente, ninguém como Robert Tyre Jones Jr. (Atlanta, 1902-1971) sofreu alegremente as piores agruras do jogo. Os erros consumiam-lhe o espírito, as derrotas escavacavam-lhe o metabolismo, a pressão matava-o. Mas também é verdade que as diversas úlceras e o terrível problema neurológico que acabou por o consumir – efeitos directos do stress da competição – contam pouco em função da aura de glória que coroa esta notável espécie de pessoa.
“A diferença entre um banco de areia e um lago é a diferença entre um acidente de automóvel e um acidente de avião.
Tu tens hipótese de recuperar de um acidente de automóvel.”
Bobby Jones

Como jogador de golfe amador, Bobby Jones foi uma das figuras mais influentes da história da modalidade. Tendo fundado o Masters Tournament, co-projectado o Augusta National Golf Club e introduzido inovações que foram posteriormente copiadas por praticamente todos os torneios profissionais de golfe do mundo, o seu estilo de jogo foi também imitado por futuros campeões.
Jones foi o golfista amador de maior sucesso a competir em nível nacional e internacional na história da modalidade. Durante o seu auge, de 1923 a 1930, ele não só dominou as competições amadoras de alto nível, como competiu com brilhantismo contra os melhores profissionais do mundo, tendo por diversas vezes derrotado estrelas como Walter Hagen e Gene Sarazen, os jogadores de elite da época.
“O adversário invisível, o adversário mais duro de todos, é o bom e velho par.”
Bobby Jones

Bobby Jones é ainda hoje considerado um intérprete tecnicamente perfeito da modalidade, e será sempre uma das grandes referências da história do Golfe. Mas é talvez pelas suas lendárias características humanas que permanecerá imortal por dentro dos séculos. Verdadeiro cavalheiro, homem honrado, de grande honestidade e apurado sentido ético, o seu fair-play é proverbial: num célebre playoff do Open dos Estados Unidos, tinha uma pancada difícil a executar, no rough junto à margem do green. Quando se preparava para dar a pancada, o ferro tocou ligeiramente na bola, provocando-lhe um ligeiro movimento. Jones alertou os marshals e o seu adversário para o facto, dado que ninguém, nem no público, se deu conta da falta. Sendo a única testemunha do seu próprio erro, confirmou-o e solicitou a falta (que equivale ao registo de mais uma pancada). Este enormíssimo campeão, que viria a perder o Open exactamente por essa única pancada, ao ser congratulado por um marshal pelo magnífico exercício de integridade, replicou:
“O sr. não cumprimentará por certo um ladrão por não roubar. Esta é forma como o Golfe deve ser sempre jogado.”
Um episódio semelhante ocorreu no Open dos Estados Unidos do ano seguinte, disputado no Scioto Country Club em Columbus, Ohio. O vento forte que se fazia sentir deslocou a bola, que lhe toucou no taco, enquanto preparava a sua pancada. Embora ninguém tenha observado essa falta, Jones voltou a reclamar a penalidade sobre si próprio, embora desta vez e apesar disso tenha ganho o torneio, a segunda das suas quatro vitórias no open dos EUA.
“Bom, fico contente por não termos de jogar à sombra.”
Bobby Jones depois de lhe terem dito que ia jogar sob temperaturas superiores a 38 graus à sombra.

Somando títulos profissionais tão sonantes como o Grand Slam (foi o único na história do jogo a conseguir ganhar os 4 maiores torneios do Golfe numa época só), Bobby Jones nunca abdicou do seu estatuto de amador, dedicando-se apenas em part-time ao treino e recusando as fortunas e os maus hábitos da prática profissional do desporto. Este facto poderá dever-se em parte à ausência de preocupações financeiras, dada a linhagem paterna de industriais e ao transbordante talento académico: bacharel em Engenharia Mecânica, bacharel de Artes em Literatura Inglesa (Harvard), Robert Tyre Jones demorou apenas um ano para se formar em Direito, ofício de que fez profissão, como advogado.
“Deves ter interesse em saber, Jack, que o meu pai pensou em vir assistir ao torneio, mas quando soube que eras tu quem eu tinha de defrontar logo na primeira ronda, mudou de ideias. Decidiu que não valia a pena fazer a viagem ao Colorado para me ver jogar uma única partida.”
Bobby Jones em conversa com Jack Nicklaus no tee box de Broadmoor, 1929

Abandonando o Golfe, a conselho médico, com apenas 28 anos, Bobby Jones foi e é ainda hoje adorado no seu país, tendo sido, até John Glenn, o único americano a ser premiado por duas vezes com a célebre parada de Nova Iorque. É hoje considerado um dos cinco mitos do desporto norte-americano dos anos 20 e o melhor desportista amador de todos os tempos.
Sofrendo horrores e castigado pelos nervos, acusando muito o insustentável peso do par mas dando invariavelmente a provar aos seus adversários o doce da sua leal cordialidade e o fel do seu jogo devastador, este é um herói inteiro do Século XX. Mais put menos put.
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