

Na história do Velho Continente, o império de Hitler foi dos maiores, mais brutais e mais ambiciosos projectos de domínio totalitário. Na sua pretensão de reformular a Europa, inspirado em legados imperiais como o do Império Romano, Sacro Germânico e Britânico, o III Reich projectou a sua sombra desde o Canal da Mancha ao Cáucaso, num território onde viviam centenas de milhões de pessoas. E contudo este império fundava-se numa ilusão. Dos planos de Hitler para a construção de auto-estradas que cruzariam o continente aos sonhos de edificar uma potência económica que rivalizasse com os EUA, Mazower revela em “O Império de Hitler – O Domínio Nazi na Europa Ocupada” (Edições 70) a fusão, mortífera, de assassínio em massa, métodos de gestão moderna, burocracia inflexível e incompetência generalizada que sustentavam a nova ordem nazi.
Considerando a análise abrangente, que abarca as várias vertentes da ocupação na Europa – os pormenores logísticos, as deslocalizações populacionais, a organização do extermínio, a economia dos territórios ocupados e o seu contributo para o Reich, e a relação entre as Forças Armadas e o Partido – O Império de Hitler é uma obra de consulta preciosa para se compreender o fenómeno que durante seis anos se abateu sobre a Europa e que, em muitos aspectos, a transformou profundamente.

Uma das grandes contradições da praxis administrativa nazi que atravessa estas páginas é precisamente a que decorre no leste da Europa: entre a imperativa e radical implementação das políticas raciais (leia-se, extermínio de judeus, polacos, russos, homossexuais, ciganos etc.), acerrimamente defendida por Hitler e Himmler, e as necessidades de mão de obra escrava para alimentar a indústria militar, e do fomento de alguma boa vontade das populações conquistadas, constantemente defendidas pelos estrategas de Wehrmacht e pelos arquitectos da burocracia imperial, como Rosenberg e Speer, há um conflito decisivo e insanável. No triunfo último do fanatismo racial, encontram-se muitas das razões para a derrocada alemã na frente russa.
A importância dada à raça continha até, dentro do seu próprio raciocínio, motivos de falência operacional: os alemães quiseram germanizar completamente alguns dos territórios conquistados aos polacos e aos checos (e que lhes tinham sido retirados no Tratado de Versalhes), mas o seu critério racial era de tal forma exclusivista, que nunca conseguiram dar consistência demográfica ao sonho de recolonização ariana. Nem mesmo a Alemanha tinha massa demográfica para cumprir as ambições eugénicas de Hitler.
Outra das centenas de análises pertinentes que este extenso e aturado trabalho encerra, é a de que nem todo o extermínio étnico se deveu directamente ao delírio alemão. Em França, na Ucrânia, na Checoslováquia, na Roménia e na Grécia, os locais não precisaram das SS para levar a cabo perseguições e chacinas de generosa dimensão. Principalmente no Leste, não foi necessário muito mais que rédea solta para que etnias historicamente hostis se começassem a aniquilar mutuamente. Aliás, ainda hoje na Ucrânia existem bolsas de nacional fascismo, que o Ocidente está a financiar e a armar.
No seu todo, a obra descobre ainda uma faceta que não costumamos associar aos alemães: a incompetência. Os territórios foram mal geridos, as suas potencialidades económicas foram subaproveitadas, nunca houve uma filosofia de administração consistente, não há registo de uma ideia para a Europa, um conceito de civilização para o império; nada. Apenas uma lógica de violência nacionalista e cegueira racial.
Prémio LA Times para o melhor livro de História de 2008.
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