“O amor é o mal.”
Arthur Schopenhauer
“Um filósofo casado pertence à comédia.”
Friederich Nietzsche

Apesar deste triste facto – ou até por causa dele – Aude Lancelin e Marie Lemmonnier tiveram a ousadia de ir à procura do amor na filosofia, e – é preciso dizê-lo – fizeram-no com brilhantismo e erudição.
“Os Filósofos e o Amor”, uma edição de 2015 da Tinta da China com tradução (excelente) de Carlos Vaz Marques e prefácio de Eduardo Lourenço, é um livrinho fascinante. Fascinante, para já, por causa do registo filológico adoptado pelas autoras. Não é todos os dias que lemos textos dedicados à filosofia que utilizem uma nomenclatura assim desassombrada: enquanto Nietzsche é um “astronauta do espírito”, Schopenhauer é um “lobisomem do libido”. Kirkegaard tem um “esqueleto semi-marreco” e é um “verdadeiro anti-viagra”. Montaigne é “felpudo como um macaco e careca como um ovo” e ficamos sem saber o que fazer à informação de que o seu pénis não era especialmente longo. Nem especialmente grosso. Há muitas páginas de autêntica comédia neste sério tratado, que fazem da sua leitura uma entretida mistura de sabedoria e coscuvilhice.
As autoras são, como era expectável, vítimas do escasso espólio existente, pela razão apontada no primeiro parágrafo, mas não se atrapalham: se os filósofos eleitos dedicaram ao amor menos páginas do que seria conveniente, as suas aventuras e desventuras amorosas, as suas miseráveis, patéticas e gloriosas vidas, dão pano para mangas. Acresce que a erudição das duas académicas francesas, devidamente complementada por um irreverente trabalho de pesquisa bibliográfica, acabam por contornar as dificuldades iniciais de forma a que o leitor se depare com um trabalho enxuto, mas repleto de substância; e de originalidade inquestionável.
O ensaio selecciona dez filósofos (na verdade são treze, porque Platão implica Sócrates, Heidegger traz Arendt pelo braço e Sartre não passa sem Beauvoir), cujas biografias são cruzadas com aquilo que escreveram sobre o tema, mesmo – outra vez – quando escreveram pouco, embora o critério esteja longe de ser aleatório: os heróis escolhidos são talvez aqueles que mais valorizaram – ou desvalorizaram – o amor.
E aqui surge uma nova dificuldade. É que, muitos destes filósofos, e principalmente Lucrécio, Mantaigne, Schopenhauer, Kierkegaard e, claro, Nietzsche, apresentam, na obra e na vida, uma concepção mais ou menos terrorista do amor romântico. Nalguns casos, são verdadeiros nemesis do envolvimento passional, noutros, autênticos campeões do libido pelo libido. E se, em Platão, o amor é uma espécie de elevador da glória que nos transporta para o belo absoluto e a eternidade das ideias, já em Montaigne lemos um indisfarçável libertinismo suportado eticamente por uma abordagem céptica do romance, em Schopenhauer surpreende-nos o nojo existencial pelo coito e e em Kirkegaard a insuportável recusa da felicidade amorosa. Assim, quando chegamos a Nietzsche, já estamos psicologicamente preparados para o espectáculo circense que nos é oferecido: já embrulhado em provecta idade, o niilista rei de todos os cépticos-anti-românticos da história universal cai com estrondo no ridículo de se apaixonar, louca e platonicamente, por uma rapariguinha de dezoito anos.
Isto já para não falar no desafio tremendo que é incluir Immanuel Kant num ensaio sobre o amor. Kant amava, talvez, o campanário da vila de Königsberg, a biblioteca local e um ideário iniciático e puritano que fosse determinar o comportamento moral dos homens para toda a posteridade. Mas pouco mais. Em certo sentido, é um homem sem biografia. Ainda assim, as duas detectives que nos guiam por este contínuo do espaço-tempo venusiano conseguem encontrar na obra e na vida do austero idealista alemão alguns detalhes surpreendentes e alguns vestígios de paixão mundana, missão que qualquer pessoa de bom senso consideraria – à partida – absolutamente impossível.
A propósito de milagres, há um outro nestas páginas: o que salva Jean Paul Sartre da sua impenitente infidelidade. E Simone de Beauvoir da sua triste sina.
Encontramos enfim alguma redenção para esta intensa e divertida torrente de factos biográficos e confissões mais ou menos folclóricas, finalmente libertos do pudor de uns e do cinismo de outros, na conclusão partilhada por Stendhal, Proust e Sartre, de que o amor é mais que o amor, é também essa célebre “vontade de poder”, de que falam todos os filósofos desde Nietzche:
“O amor não pode resumir-se ao simples facto de se possuir uma mulher, mas visa, através da mulher, a conquista do mundo inteiro”.
Convenhamos: é difícil terminar de forma mais coerente, universalista e… romântica. Afinal, o amor e a filosofia deviam dar-se melhor. É através de um que se resolve a outra.
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