
“People are coming to me for answers. How the fuck do I know?”
Grian Chatten
Quando em 2001 os The Strokes lançaram o seu primeiro longa duração, o eterno “Is This It”, houve quem acreditasse que o punk rock tinha subitamente ressuscitado da cinzas. Apesar da carreira brilhante da banda de Nova York, que continua a fazer muito boa e inspirada música, não foi bem isso que aconteceu. Outras tentativas de levantar do chão a ética e a energia e a inocência e o ruído niilista dos tempos conturbados de Sid Vicious e ensandecida companhia têm entretanto sido experimentadas, mas com a excepção de alguns fenómenos épicos como os Pigeon Detectives, o post-punk ficou-se pela intenção revivalista.
Neste contexto, os Fontaines D.C. são, em definitivo, a mais credível, determinada e coerente proposta para um movimento de sobrevivência e continuidade do punk rock que podemos testemunhar na última década. E com uma particularidade: a banda de Dublin não insiste no revivalismo, procurando e encontrando soluções de ruptura com a indústria discográfica mainstream e a cultura popular, apontadas para o porvir e sustentadas numa aparelhagem lírica e instrumental que promete – e cumpre – profundidades inauditas.

A 12 de Abril de 2019, os Fontaines D.C. lançaram “Dogrel”, o seu primeiro engenho termo-nuclear. O tema de abertura desta electrificada e sintética carga de cavalaria, com um minuto e 45 segundos de breve mas intensa duração, anunciava logo uma ambição conquistadora:
O disco está repleto de manifestos que dão enquadramento ao projecto melódico dos irredutíveis irlandeses: poemas pungentes e riffs minimais, quase displicentes mas altamente efectivos, a correrem vertiginosamente sobre uma secção rítmica poderosa, de fundamentos clássicos. O resultado é retumbante, irreverente, estranhamente profético, oscilando entre um regresso ao dadaísmo dos Ramones e uma proposta conceptual para o futuro da música popular.
O apelo aos valores do punk e da sua capacidade de comunicação efusiva e grandiloquente preenche substantiva parte deste iniciático trabalho, de que “Liberty Bell”, um hino à moche tanto como um elogio do livre arbítrio, será porventura o melhor exemplo.
A reação da crítica foi de histerismo e o público também aderiu a esta pedrada no charco, já que o disco atingiu o top dez de vendas no Reino Unido, na Irlanda e na Escócia, tendo sido nomeado para os Mercury Prize e o Choice Music Prize de 2019.

Uma das características curiosas dos Fontaines D.C. é que a banda foi formada por cinco rapazes que tinham em comum, para lá, obviamente, da paixão pela música, o amor à poesia, tendo até editado, antes de qualquer disco, dois volumes de poemas, um dedicado aos americanos da geração beatnick Jack Keorac e Allen Ginsberg e outro com uma colectânea dos irlandeses Patrick Kavanagh, James Joyce e W. B. Yeats.
E se essa atenção ao conteúdo lírico já era bem nítida no primeiro trabalho de estúdio, o segundo, “A Hero’s Death”, lançado em julho de 2020, é um manifesto literário do princípio ao fim.
Now you’re rolling in the dirt
Playing up to what you’re worth
And we know what freedom brings
The awful songs it makes you sing
Don’t you play around with blame
It does nothing for the pain
(…)
When you go down to that place
It makes a monster of your face
It makes you twisted and unkind
And all the right words hard to find
There’s no living to a life
Where all your fears are running rife
And you’re mugged by your belief
That you owe it all to grief
No

Embora mais sombrio do que “Drogel”, apesar da componente satírica de alguns temas, “A Hero’s Death” procura um trilho ascendente no declive da existência, promovendo uma espécie de frente a frente com monstros e anjos, combate incontornável no caminho da redenção. Apesar da sua densidade inquietante, o disco estava destinado, imagine-se, a destronar Taylor Swift dos charts britânicos, e só uma manobra de marketing de última hora da editora da estrelinha pop fez com que os Fontaines D. C. não atingissem, por apenas 3.500 cópias, o topo das vendas. Considerando a abordagem ultra-alternativa da banda irlandesa, o seu segundo trabalho de estúdio foi um estrondoso e surpreendente sucesso, tendo sido nomeado para álbum do ano pelos Grammy Awards e pelo Choice Music Prize e catapultando o agrupamento para a nomeação de melhor banda de 2021 nos Britt Awards.
Mas os parágrafos até aqui redigidos são na verdade preambulares, porque o assunto central deste texto é o terceiro longa duração da banda, que saiu em Abril deste ano.

“Skinty Fia” não é tão eléctrico nem tão gritante, não injecta no cérebro do audiente a mesma energia histriónica dos dois discos anteriores dos Fontaines DC. Para além do tom mais sóbrio, este trabalho é também mais bucólico. Quase romântico. Ou tão romântico como o Punk Rock pode ser.
Aparentemente mal humorado, carregado de trevas aqui e ali, como um signo apocalítico gravado na porta do templo, o disco revela-nos uma banda já madura, em pose teatral, que, como se já não tivesse nada a provar, não teme arriscar canções quase pop, entre-cortadas radicalmente com monumentais tragédias gregas, como este “In ár gCroíthe go deo”, “Nos nossos corações para sempre”, em gaélico.
“Skinty Fia” é uma montanha russa de emoções contraditórias, um torrencial manifesto sónico tricotado com tonalidades antípodas que desorientam o audiente, deixando-o sem chão que pisar nem ar que respirar. E mesmo quando o ambiente se dissipa para permitir experiências mais prosaicas, há sempre um rasgo de dissidência nos interstícios da pauta.
Entre o movimento fúnebre e o melodrama romântico, os Fontaines D.C. descobrem a sua maturidade artística e performativa, o seu lugar ao sol no grande circo da música popular contemporânea: à terceira tentativa, lá chegaram ao topo dos charts britânicos, mesmo contra uma recepção da crítica que não foi tão entusiasmada como até aqui tinha sido.
Afinal, o punk está vivo e recomenda-se, cinquenta anos depois do facto e mesmo que numa versão post-post-Avant-garde, que é mais nostálgica do futuro de que saudosa do passado.
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