
Produzido pelo mago Todd Rundgren, “Remote Control” é um trabalho inspirado no romance de Jerzy Kosinski, “Being There” (que mais tarde foi transformado num filme protagonizado por Peter Sellers), sobre um falso sábio viciado em televisão. A capa do álbum mostra um bebé num Vidi-Trainer especialmente construído para a produção fotográfica, criado por Michael Cotten e Dave Mellot. A chupeta no monitor, indexando ao vício, é um toque genial.
O tom electrónico de “Remote Control”, implementado por Rundgren, era novo para a banda, até porque era completamente revolucionário na altura. Basta pensar que este disco foi lançado 3 meses antes de “Unknown Pleasures” dos Joy Division, um ano antes dos primeiros trabalhos dos Orchestral Manoeuvres in the Dark e dos Buggles e dois anos antes de “Speak & Spell” dos Depeche Mode e de “Dare”, dos Human League; todos registos iniciáticos do que viria a ser a música electrónica dos anos 80. Antes dos The Tubes, só os Kraftwerk e os Ultravox tinham experimentado os sintetizadores desta maneira reverberante e poderosa.
Grande parte das faixas foram reescritas por Rundgren e pela banda quando em estúdio iniciaram as gravações, incluindo “Turn Me On” (anteriormente “Get Over It”); e “Telecide” (originalmente “The Terrorists of Rock”).
Fee Waybill e Re Styles partilharam a interpretação vocal em “Prime Time”, embora Rundgren tivesse tentado gravar uma versão apenas com Styles. Quando Waybill descobriu, exigiu cantar também, armando uma confusão típica do seu carácter egotista e temperamental. A banda interpretou a canção no Top of the Pops e em digressão na Europa, antes de a excluir da playlist da digressão, para evitar tensões entre Waybill e Styles.
O músico e estilista visual Michael Cotten concebeu um espectáculo multimédia inovador para a digressão do disco, que empregou vários monitores de TV e um projector de filme de 35mm. Testaram-no ao vivo e sem ensaio geral no Royce Hall da UCLA, mas houve múltiplos problemas técnicos, incluindo a fraca visibilidade das pequenas telas de TV, e problemas de sincronização com as projecções do filme. Os custos e as disfunções da parafernália acabaram por levar a uma digressão cenograficamente despojada nos Estados Unidos, Japão e Europa.
“Remote Control”, que hoje se ouve tão bem como no ano paleolítico em que foi lançado, é um disco eterno. Diverso como um banquete, intenso como o diabo, moderno como um manifesto de Álvaro de campos, ecoa para fora do seu tempo, como um sintetizador analógico numa orquestra barroca.
Relacionados
5 Nov 25
Clássicos Britpop: Oasis, Blur e Stone Roses.
A discoteca da minha vida #16: três bandas britânicas que nasceram com os anos 90 e que cresceram pela eternidade a dentro, numa sinfonia electrificada e desalinhada de talento, má criação e vocação épica.
15 Out 25
Clássicos Grunge: Nirvana, Alice in Chains, Smashing Pumpkins.
A discoteca da minha vida #15: três das mais poderosas bandas que rebentaram entre Seattle e São Francisco para fazer da década de 90 um operático e desalinhado manifesto rock, com tiros na cabeça, hinos que fazem parar a chuva e Alice no país das moscas.
29 Set 25
Playlist Improvável #2:
Canções para matar saudades.
Algumas canções doem, outras fazem rir, outras parecem resistir ao tempo só porque aprendemos a ouvi-las de outra maneira. Uma playlist de Silvana Lagoas.
24 Set 25
Profetas e estetas dos anos 90: Eno & Cale, Flowered Up, REM e The Curve.
A discoteca da minha vida #14: abrindo caminho para as pautas que aí vinham, quatro orquestras - duradouras umas, éfemeras outras - que marcaram o início dos anos 90, com talento iniciático e ímpeto visionário.
15 Set 25
Pop filosófico: uma playlist improvável.
Silvana Lagoas tomou conta do Gira-discos do Contra para fazer um retrato da condição humana em 12 temas improváveis, mas que constituem evidência material que o pop pensa e obriga-nos a pensar.
3 Set 25
No velório dos anos 80: Loyd Cole, Lou Reed, The Mission e Pixies.
A discoteca da minha vida #13: no funeral da mais exuberante e escaganifobética década da história da música, tocam os timbres sonhadores de Lyod Cole, os riffs apocalíticos dos Mission, os acordes heréticos dos Pixies e a ópera urbana de Lou Reed.






